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Biocombustíveis acusados de terem criado a crise alimentar

5 de Julho, 2008

Segundo o Público, um estudo do Banco Mundial vem dizer que os biocombustíveis são responsáveis por 75 por cento do aumento dos preços.
O cerco aos biocombustíveis – sobretudo aqueles que competem com a alimentação como o etanol a partir de milho – está cada vez mais apertado. Desta vez foi um relatório confidencial do Banco Mundial, divulgado ontem pelo jornal The Guardian, que diz que a procura por estas alternativas ao petróleo é responsável por um aumento dos preços mundiais da alimentação em 75 por cento.

Salvaguardando que o etanol brasileiro, que é feito a partir de cana-de-açúcar, está fora desta acusação, o relatório vai muito mais longe do que já foi dito até agora. O número que avança – 75 por cento – é incomensuravelmente superior àquele que é defendido pela Administração americana, que fala de três por cento.
Esta terá sido uma das razões por que o relatório se manteve secreto, diz o jornal britânico. Para não “embaraçar o Presidente Bush”, que tem defendido energicamente a sua subsidiada indústria de etanol feito a partir do milho. O PÚBLICO tentou obter uma reacção do Banco Mundial, mas como ontem era o feriado de 4 de Julho nos EUA, tal não foi possível.
Segundo o estudo, “sem o aumento na produção de biocombustíveis, as reservas globais de trigo e milho não teriam declinado tanto e os aumentos de preços devidos a outros factores teriam sido mais moderados.” Entre 2002 e este ano, as matérias-primas agrícolas aumentaram 220 por cento e o estudo adianta que a alta dos preços da energia e dos fertilizantes contribuíram apenas 15 por cento para este crescimento.
Três razões para a acusação
O grande problema dos biocombustíveis, assegura o relatório feito pelo economista Don Mitchell, do Banco Mundial, foi a distorção dos preços nos mercados alimentares por três grandes razões.
A primeira porque desviou as matérias-primas da alimentação para os combustíveis, com cerca de um terço do milho americano a ser usado para fabricar etanol e cerca de metade dos óleos vegetais da União Europeia a irem para a produção de biodiesel. Em segundo lugar, os agricultores terão sido encorajados a desviar terras para a produção de biocombustíveis. Por último, desencadeou uma enorme especulação nos mercados de futuros dos grãos, o que incentivou mais o aumento dos preços.
Face a estes dados, o aumento da procura por parte da China e da Índia, que começaram a introduzir carne na sua alimentação potenciando a necessidade de rações, parece incipiente.
Estas conclusões vêm-se a juntar a muitos outros alertas que têm sido feitos sobre o impacto dos biocombustíveis no aumento do preço dos alimentos. E vem aumentar a pressão sobre as nações mais ricas do mundo, o G8, que se reúnem para a semana no Japão e que terão os dois assuntos em cima da mesa. Mas nela estarão sentados muitos dos defensores da aposta nestes substitutos dos combustíveis, como George W. Bush, Lula da Silva (embora a razão penda mais para o lado do último) e a Alemanha que produz biodiesel a partir de colza.
É também mais um contributo para o intenso debate que decorre na UE, em que a Comissão está cada vez mais pressionada a desistir da sua meta para a incorporação de biocombustíveis nos transportes, situada em 10 por cento até 2020. Os relatórios de especialistas sucedem-se e tornam-se cada vez mais difíceis de ignorar.
Lula da Silva, Presidente do Brasil, já avisou que irá à reunião do G8, que decorre na próxima semana no Japão, defender os biocombustíveis. Mas os “seus” biocombustíveis, ou seja, o etanol feito a partir de cana-de-açúcar. Esta produção é altamente eficiente e não compete com a alimentação, dois argumentos que levaram Lula a comparar, em Roma durante a Cimeira da Alimentação, o seu etanol ao “bom colesterol” e o etanol americano ao “mau colesterol.”

Fonte: Público